domingo, 24 de novembro de 2013
domingo, 17 de novembro de 2013
Estresse & Qualidade de Vida no Trabalho
Mediadores biocomportamentais de estresse e qualidade de vida em contextos ocupacionais
Pesquisa Científica por: Robert J. G. (Ph.D.) - Andrew Baum (Ph.D.)
Resenha: Selma Cordeiro
A natureza do trabalho está mudando muito rapidamente. Talvez agora mais do que nunca o estresse no emprego represente uma ameaça para a saúde dos trabalhadores e, por sua vez, para a saúde da organização. (Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional - NIOSH).
A pesquisa teve o apoio financeiro do Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá.
Segundo os pesquisadores, alguns dos primeiros trabalhos com esse enfoque estão associados com a Michigan School (NELSON; SIMMONS, 2003) e incluíam estudos de apoio social e estresse, bem como exigências de emprego, desemprego e saúde (por exemplo, CAPLAN; COBB; FRENCH, KAHN; WOLFE; QUINN; SNOEK; ROSENTHAL, 1964). Ao mesmo tempo, trabalhos na Suécia estavam identificando mecanismos relacionados ao estresse que subjaziam às relações entre o estresse no trabalho ou condições problemáticas no trabalho e estresse, saúde metal e doença (por exemplo, FRANKENHAEUSER; GARDELL, 1976; FRANKENHAEUSER; LUNDBERG; FORS-MAN, 1980). Esses estudos levaram às pesquisas em Psicologia da Saúde e Psicologia da Saúde Ocupacional e ao estabelecimento desse tipo de trabalho como suporte principal da pesquisa na medicina biocomportamental. A ampliação nessa área sugere que “a aplicação de modelos de estreses ao local de trabalho é uma forma útil de modelar os resultados da experiência ocupacional e delinear os mecanismos biocomportamentais que subjazem aos aumentos consequentes da doença e infelicidade”.
Há uma série de condições nos contextos ocupacionais que podem causar estresse, incluindo as exigências e as responsabilidades de um emprego e as condições organizacionais e sociais no local de trabalho, e as relacionadas com colegas de trabalho, supervisores e com a organização em geral. Os estressores são tais como pressões no emprego e apoio social, mas não são diretamente relevantes para o estresse a não ser que um processo de avaliação sugira que sejam problemáticos (SPIELBERGER; VAGG; WASALA, 2003). Mudanças emocionais e biológicas ocorrem quando um trabalhador procura lidar com situações estressantes, e as consequências dessas mudanças podem incluir problemas de saúde mental, doença física, absenteísmo (afastamento) e Burnout (SPIELBERGER et al., 2003).
Estresse X Saúde
O reconhecimento mais amplamente aceito da influência do estresse na saúde é um avanço, relativamente recente, em nossa conceitualização da saúde e da doença (BAUM; GATCHEL; KRANTZ, 1997). O precursor da pesquisa recente sobre o estresse foi a síndrome da adaptação geral de Hans Selye (SELYE, 1946), que inicialmente ressaltou a importância de fatores ambientais na doença. Subsequentemente, Lazarus e Folkman (1984) forneceram uma conceitualização mais geral do estresse como as influências fisiológicas, psicológicas ou mentais que exercem pressão sobre o organismo, desgastando ou excedendo sua capacidade de responder. A psiconeuroimunologia também aumentou nossa compreensão das conexões complexas entre o estresse e a doença. Essa área de pesquisa demonstrou que, durante períodos de estresse, o funcionamento imune se torna mais fraco (por exemplo, ADlER; FELTON; COHEN, 1990), deixando a pessoa mais suscetível a doenças menos graves como o resfriado ou a gripe. Os estressores psicossociais que desgastam o sistema imune incluem acontecimentos negativos (como discórdia conjugal e luto), bem como estressores ocupacionais no trabalho.
Estresse X Saúde Ocupacional
Em termos do "uso e gasto" cumulativo sobre sistemas fisiológicos causado pela excessiva ativação de longa duração da resposta de estresse, McEwen (1998) criou a expressão carga alostática. Ele revisou estudos que revelavam graves consequências negativas para a saúde causadas por essa carga alostática sobre o resto do corpo. Aumenta o número de estudos que comprovam problemas de saúde como cardiopatia, problemas intestinais, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e, inclusive, câncer (WARGO, 2007).
Breve definição de ALOSTASE
Estresse e cardiopatias
Especificamente quanto à cardiopatia, os dados são bastante surpreendentes. Por exemplo, um estudo recente realizado por Aboa-Eboule, Brisson, Maunsell et ai. (2007) demonstrou que, além de estudos anteriores mostrarem que a tensão no emprego aumenta o risco de uma primeira cardiopatia coronária, a tensão crônica no emprego depois de um primeiro infarto do miocárdio estava associada com um risco maior de ocorrer cardiopatia coronária recorrente.
De fato, tinha-se demonstrado em numerosos estudos anteriores que a tensão no emprego (que consiste de uma combinação de altas exigências psicossociais e baixa latitude de tomada de decisões) aumentava o risco de ocorrer uma primeira cardiopatia coronária (por exemplo, ALFREDSSON; SPETZ; THEORELL, 1985; HAAN, 1988; KORNITZER et al., 2006; KUPER; MAR-MOT, 2003). Com efeito, há muito tempo se demonstrou que uma das principais causas da epidemia de doenças cardiovasculares em países industrializados se deve ao stress ocupacional no trabalho (OLSEN; KRISTENSEN, 1991; RAGLAND et al., 1987; SCHNALL et al., 1990).
Pesquisa sobre a síndrome metabólica tem demonstrado uma relação entre estresse e doença. A síndrome metabólica é um conjunto de fatores de risco para diabetes e doenças cardíacas, um grupo de fatores que predispõem um aumento nos riscos para diversas doenças. Ela se caracteriza pela obesidade (abdominal), alto nível de triglicérides e colesterol, hipertensão arterial, inflamação e resistência à insulina. Estudos sobre a síndrome metabólica têm evidenciado que o estresse ocupacional e está associado a alguns aspectos da síndrome (BRUNNER et aE7T997; RAIKKÓNEN; MATTHEWS; KULLER, 2007). Um estudo recente realizado, durante um período de dez anos, com mais de dez mil homens e mulheres indicou uma relação positiva entre crônico estresse no trabalho e a síndrome metabólica, definida como o conjunto de sintomas mencionado acima (CHANDOLA; BRUNNER; MARMOT, 2006).
Estresse Ocupacional
Muitos empregos implicam pressões para terminar quantidades crescentes de trabalho, e essas pressões podem contribuir para a sobrecarga social e o estresse (por exemplo, BAUM et ai., 1997; COHEN, 1978; FRANKENHAEUSER; GARDELL, 1976). As pressões do emprego e os problemas sociais resultantes podem causar estresse diretamente, que também pode estar associado com ambiguidade em termos de papel, conflito em relação ao papel e condições resultantes de absenteísmo, baixa produtividade, rotatividade, burnout e, por fim, problemas de saúde mental e física (por exemplo, COOPER; MARSHALL, 1976) (Schultz; Feuerstein; Gatchel; Stowell (2006).
As pressões derivadas do trabalho, o papel do trabalhador na organização, o contexto ou apoio social que caracteriza as relações do trabalhador no emprego e o clima ou estrutura organizacional estão todos relacionados com a propensão de um contexto ocupacional ser estressante (COOPER; MARSHALL, 1976). Schultz et ai. (2006) propuseram uma revisão abrangente dos vários modelos desenvolvidos para explicar a melhor compreensão dos aspectos multidimensionais de muitos problemas de saúde no local de trabalho.
Modelos inclusivos e modernos para o estudo de estresse ocupacional foram desenvolvidos durante os últimos 25 anos do século XX. A maioria deles geralmente contempla quatro tipos de estressores, incluindo:
1) exigências físicas de um emprego;
2) exigências do papel a ser desempenhado no emprego;
3) exigências das tarefas a serem cumpridas no emprego;
4)questões sociais/interpessoais (por exemplo, QUICK; QUICK, 1984).
Há sobreposição entre esses modelos e em todas essas fontes de exigências, mas é instrutivo examiná-los, brevemente, e integrá-los com a teoria do estresse.
Os modelos de Exigência\Controle representam uma tentativa de combinar as condições estressantes associadas com o nível de exigência (trabalho a ser feito) e as influências moderadoras ou exacerbadoras da capacidade de um trabalhador de controlar a taxa de trabalho ou o timing das exigências de trabalho (por exemplo, KARASEK, 1979). Empregos de exigências elevadas apresentam maior probabilidade de serem estressantes; à medida que a exigência se aproxima de níveis excessivos ou inatingíveis, as respostas dos trabalhadores, provavelmente, se tornam cada vez mais negativas. No entanto, entre esses trabalhadores, aqueles que têm uma latitude de decisões considerável e podem controlar o ritmo ou o timing do trabalho podem moderar esse estresse. A combinação de altas exigências X de níveis baixos de controle percebido pode produzir estresse e problemas relacionados com a saúde (THEORELL; KARASEK, 1996).
Esse modelo foi adaptado para que se possam acrescentar outras condições e variáveis moderadoras. Por exemplo, o apoio social foi descrito como um fator moderador à semelhança do controle percebido (KARASEK et al, 1998). Esses modelos modificados, juntamente com a formulação original, têm sido tabulados, apesar das dificuldades em medir a latitude de decisões e o controle percebido e em validá-los, dadas as muitas outras fontes de discrepância no contexto do trabalho. Contudo, esse modelo continua sendo uma caracterização intuitiva e atraente do estresse no trabalho e oferece hipóteses testáveis sobre como as características do trabalho podem causar doença e reduzir a qualidade de vida.
Uma perspectiva diferente enfatiza o grau em que os trabalhadores podem derivar gratificação ou satisfação do trabalho que realizam. Siegrist (1996) sugere que, quando o nível de recompensa é baixo demais, especialmente, quando a exigência é alta, os trabalhadores podem perceber um desequilíbrio entre gratificação X esforço, levando ao estresse.
Por fim, uma série de teorias sugere que conflito interpessoal, combinações equivocadas de liderança e outras condições ou características sociais de um contexto ocupacional podem causar estresse e, potencialmente, consequências desse estresse. Os contextos ocupacionais são recorrentes e episódicos na vida das pessoas, e o estresse persistente nesses contextos representa uma exposição grande, duradoura e repetitiva a estressores.
As condições estressantes são avaliadas por trabalhadores individualmente e, à medida em que essa avaliação sugere que eles estão vivenciando estresse, desencadearão uma variedade de mudanças biológicas e psicológicas que podem levar diretamente a consequências relacionadas com o estresse. A especificação desses processos e mecanismos é importante na prevenção do estresse no emprego e em intervenções que visem a minimizar as consequências do estresse vivencial.
Considerar essa situação no contexto de nossa discussão acima sugere formas em que o estresse no emprego pode causar problemas para os trabalhadores. O nível de exigência descrito por Karasek pode ser caracterizado desde alto demais até baixo demais. Um trabalhador que encontra uma exigência muito alta no emprego pode se beneficiar dos efeitos energizantes da excitação do estresse; maior estado de alerta e acuidade mental deveriam ser associados com um desempenho melhor, especialmente para tarefas bem aprendidas ou tarefas que exigem esforço físico.
É possível discutir se essas exigências são tão persistentes ou não a ponto de causarem mudanças nocivas no estado de ânimo, perspectiva ou saúde física, mas, em geral, para alguns empregos, a excitação física característica do estresse é útil no coping com a exigência. Quanto mais "próximo" o emprego estiver das prováveis condições com que se confrontavam os organismos quando a resposta do estresse evoluiu, tanto mais forte esse benefício provavelmente será.
O impacto e o controle sobre o trabalho ou o ritmo de trabalho na natureza estressante da exigência sugerem que alta exigência e baixo controle produziriam trabalhadores que estão vivenciando efeitos energizantes de estresse, mas estão em uma situação em que há poucas opções disponíveis para o coping e a adaptação. É possível, que os trabalhadores se encontrem pressionados a empreender uma ação decisiva em uma situação em que haja pouca ou nenhuma opção para ação. Isso poderia resultar em respostas do tipo "sem ter para onde ir", levando a níveis crônicos e, às vezes, excessivos de distresse e excitação.
Há estressores para os quais essas respostas também parecem menos apropriadas ou eficientes. Os estressores interpessoais relacionados a números de trabalhadores ou subemprego, monotonia, e os estressores associados com características ambientais (por exemplo, iluminação, layout arquitetônico) parecem menos intensos quanto às respostas associadas com a resposta de estresse geral. Por exemplo, uma quantidade maior de força pode ser irrelevante para esses estressores, e esses efeitos da resposta de estresse podem contribuir para uma excitação física excessiva ou prolongada. Os efeitos redutores de estresse dos exercícios podem ser parcialmente devidos ao seu valor na liberação dessa energia acumulada que não foi usada. Contudo, as respostas de coping que podem ser úteis para reduzir os efeitos dessas discrepâncias podem oferecer ampla oportunidade para a adaptação.
Independentemente da relevância da resposta geral de estresse para o coping eficiente com um estressor, há consequências sempre que essas respostas são suscitadas. Uma adaptação rápida irá neutralizar essas mudanças, muitas vezes, antes que possam exercer qualquer efeito mas, à medida em que o estresse é vivenciado em contextos ocupacionais, algumas mudanças vão ocorrer.
Implicações para a intervenção
Além do fato de o estresse ocupacional poder levar a taxas maiores de doença entre os trabalhadores, há também outro custo potencialmente significativo para os empregadores - taxas mais altas de absenteísmo (afastamento), rotatividade no emprego, insatisfação com o emprego e desempenho pior no emprego (KTVI-MAKI et ai., 2002), bem como taxas mais altas no abuso de drogas (GREENBERG e GRUNBERG, 1995). Em resposta a isso, fizeram-se tentativas para reduzir estressores ocupacionais e melhorar a saúde. Umas dessas tentativas iniciais foi um programa desenvolvido pela Johnson & Johnson Corporation. Em 1979, iniciaram um programa chamado Live for Life [Viva para a Vida] (LFL) para mais de 28 mil empregados em 50 diferentes locais de trabalho (BLY; JONES; RI-CHARDSON, 1986).
O programa LFL era gratuito para os empregados nos locais de trabalho da empresa e incluia os elementos básicos de um programa de bem-estar: uma avaliação do estilo de vida e um exame geral de saúde; um seminário sobre estilo de vida que dava aos empregados um panorama dos componentes essenciais do bem estar e do programa LFL; várias aulas sobre tabagismo, perda de peso, nutrição, gerenciamento do estresse, yoga, educação sobre o álcool e boa forma física; alteração do ambiente de trabalho (por exemplo, comida mais nutritiva no refeitório; dependências para a prática de exercícios físicos; flexibilização do horário de trabalho; rodízio no uso do carro; programas para melhorar as relações entre empregados e supervisores) feedback e follow-up sistemáticos.
Realizou-se uma série de estudos para avaliar a eficiência do programa acima. Por exemplo, Bly et ai. (1986) compararam um grande grupo de empregados nas plantas do LFL que participaram do programa durante dois anos versus empregados de fábricas que não participaram do LFL. Os resultados revelaram melhoras significativas entre empregados que participaram do LFL em termos de exercícios, boa forma, satisfação no trabalho, abandono do cigarro, bem como diminuição do risco de cardiopatias coronárias e do estresse. Após esse estudo, várias outras grandes empresas começaram a introduzir programas semelhantes para seus empregados (por exemplo, New York AT&T; Blue Cross/Blue Shield), com benefícios positivos comparáveis. Dever-se-ia observar, contudo, que esses programas estão diretamente relacionados com a economia. Quando a economia piora e as empresas tentam cortar custos, as primeiras coisas que são cortadas são programas como estes que não acrescentam coisa alguma ao "resultado dos relatórios de lucros trimestrais".
A importância dos programas, acima, foi a clara demonstração de como o estresse ocupacional, se enfrentado de forma adequada, pode ser reduzido, com resultados positivos para a saúde. Esses resultados mostram novamente uma conexão, embora indireta, entre o estresse ocupacional e as consequências para a saúde. Depois disso, vários pesquisadores do estresse ocupacional delinearam métodos para reduzir substancialmente os estressores no local de trabalho. Taylor (2006) resumiu esses métodos.
Métodos para reduzir o estresse no local de trabalho.
Reduzir tanto quanto possível os estressores físicos no trabalho, como barulho, iluminação agressiva, aglomeração, extremos de temperaturas etc.
Minimizar a imprevisibilidade e a ambiguidade nas tarefas e nos níveis de desempenho esperados.
Envolver tanto quanto possível os trabalhadores em decisões importantes que possam afetar o estresse no local de trabalho (por exemplo, controle sobre certas características do emprego, como a ordem e o ritmo em que certas tarefas são realizadas).
Tornar as tarefas do emprego tão interessantes e gratificantes quanto possível.
Oferecer dependências sociais e recreativas aos trabalhadores, para desenvolver e promover apoio social significativo, durante períodos de intervalo, hora do almoço e tempo livre depois do expediente.
Oferecer recompensas tangíveis para os trabalhadores por bom desempenho (por exemplo, recompensas monetárias como bônus, folgas etc.)
Treinar os supervisores para monitorar sinais potenciais de estresse (por exemplo, apatia, raiva, absenteísmo, monotonia, negligência) e então intervir antes que o estresse se torne problemático.
Resumo e conclusões da pesquisa
Foi revisada a literatura científica existente sobre os importantes mecanismos biocomportamentais implicados no estresse ocupacional, na saúde e na qualidade de vida. Discutiu-se o papel significativo desempenhado pelo estresse no local de trabalho, principalmente, na medida em que afeta o funcionamento fisiológico, como a atividade do SNC, a excitação do SNS, a reatividade do eixo HPA e o potencial para uma carga alostática excessiva sobre o corpo. Essas cargas alostáticas excessivas podem acarretar graves consequências negativas para a saúde, como doenças cardiovasculares, problemas intestinais, depressão e inclusive câncer. Revisaram-se pesquisas que demonstram essa relação tóxica de estresse ocupacional e doença.
Ao longo dos anos, foi desenvolvida uma série de modelos de estresse ocupacional que enfatizou quatro tipos principais de estressores: exigências físicas do emprego, exigências do papel a ser desempenhado no emprego, exigências das tarefas a serem cumpridas no emprego e questões sociais e interpessoais no local de trabalho. Estes, muitas vezes, se sobrepõem, mas constatou-se que todos eles contribuem, individualmente, para o grau de estresse ocupacional que pode ser vivenciado por um trabalhador. Apresentou-se uma perspectiva geral de como esses tipos principais de estressores impacta mecanismos biocomportamentais.
Por fim, expuseram-se as implicações potenciais para a intervenção dessa base de conhecimento científico acumulado. Intervenções bem sucedidas introduzidas no local de trabalho, bem como a pesquisa que resume métodos para reduzir o estresse no local de trabalho, forneceram suporte empírico adicional (embora indireto) para a forte conexão entre estresse ocupacional e consequências negativas para a saúde.
Fonte: Stress e Qualidade de Vida no Trabalho - O positivo e o negativo. Organizadores: (Ana Maria Rossi, J. Campbell, Pamela L.Perrewé e outros) Editora Atlas - 2009
sábado, 9 de novembro de 2013
Espiritualidade restauradora
Estudos avaliam a relação entre espiritualidade e saúde mental em pessoas que sofrem de sintomas pós-traumáticos
Por Julio Peres e Alexander Moreira-Almeida
O mosaico de variáveis constituintes da natureza humana – não completamente conhecido pela ciência – promove uma ampla gama de respostas cognitivas e comportamentais entre as vítimas de traumas psicológicos. Isso se deve em parte pelas incontáveis possibilidades de processamento dos eventos estressores, o que afeta criticamente a confi guração ou não do trauma. Pesquisadores mostraram uma forte relação entre o trauma psicológico e o desenvolvimento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno Depressivo, Transtorno de Personalidade, Transtorno Somatoforme, fobias específi cas e fobia social, auto-mutilação, suicídio, comportamentos de alto risco e abuso de substâncias (como drogas e álcool).
Embora as memórias traumáticas sejam em maior parte associadas ao TEPT na literatura, um grande número de pessoas traumatizadas não preenchem os critérios diagnósticos ao TEPT ou outros transtornos psiquiátricos. Essas pessoas podem apresentar o TEPT parcial (ou subsindrômico) – correspondentes a 30% da população – e com freqüência procuram a psicoterapia. Estudos americanos mostraram que a prevalência, ao longo da vida, de eventos potencialmente traumáticos pode alcançar de 50% a 90%, enquanto a prevalência do TEPT na população geral é estimada entre 8% e 10%. Esses dados mostram que os eventos estressores, por si só, na maioria dos casos, não conduzem necessariamente à manifestação do trauma psicológico. Embora existam diferenças de qualidade signifi cativas na maneira como as pessoas traumatizadas e não-traumatizadas processam e categorizam suas experiências, há questões de extremo interesse e convenientes à Psicologia e à Psiquiatria que ainda precisam ser respondidas. Por que 90% das vítimas de traumas não desenvolvem TEPT? Que variáveis poderiam predizer a superação face ao trauma? Seriam esses fatores úteis no tratamento de pacientes traumatizados? Para respondê-las, pelo menos parcialmente, trazemos as contribuições dos estudos mais recentes sobre um tema que sempre existiu no curso da história humana, a despeito de diferentes épocas ou culturas: a espiritualidade e a religiosidade.
O IMPACTO DO TRAUMA E A SUBJETIVIDADE
Na tragédia de 11 de seetembro, amigos e familiares das vítimas criaram um altar em frente às Torres Gêmeas: homenagem aos entes queridos para ameninazr a dor e oferecer conforto
A surpresa e o imponderável estão geralmente associados a ocorrências traumáticas que alteram, às vezes drasticamente, uma dinâmica estável de vida. As pessoas que sofreram traumas, freqüentemente perdem por algum tempo a estabilidade constituída para conduzir o dia-a-dia e podem, assim, favorecer o esmaecimento da motivação para viver, o isolamento e a depressão. Solidão, vazio, desesperança e desamparo são palavras utilizadas, com freqüência, por indivíduos traumatizados, para exprimirem seu estado emocional. Nessas e em outras condições, muitas pessoas buscam um novo signifi cado e propósito para sua vida. A religiosidade e a espiritualidade estão fortemente enraizadas numa busca pessoal para compreender a vida, seu signifi cado e suas relações com o sagrado ou o transcendente. Assim, as crenças e práticas espirituais e/ou religiosas podem contemplar essa necessidade de buscar um sentido mais amplo para a vida e infl uenciar a maneira como as pessoas interpretam e lidam com acontecimentos traumáticos.
É no mínimo curioso como a subjetividade e as respectivas representações internas articulam percepções, memórias e sistemas de crenças capazes de gerar respostas objetivas ao longo da vida. Estudos longitudinais de 30 anos sugerem que um estilo de vida mais positivo, como, por exemplo, conseguir enxergar um copo como meio cheio ao invés de meio vazio, foi um fator crítico para a longevidade e uma saúde melhor. Por outro lado, o estilo de vida pessimista e de desesperança esteve associado signifi cativamente à mortalidade.
Fé x trauma
Vários estudos mostraram que muitas pessoas lidam com eventos estressores ou traumáticos apoiados em suas crenças religiosas. Uma pesquisa de âmbito nacional, nos Estados Unidos, sobre as reações ao estresse após o evento de 11 de setembro, mostrou que recorrer à religião (orações, religiosidade ou espiritualidade) como forma de enfrentar o respectivo estresse foi a segunda maneira mais comum de lidar com o impacto emocional do evento (90%), seguindo-se ao ato de conversar e compartilhar com outras pessoas, que ocupou o primeiro lugar, com 98%. O uso da religião como forma de enfrentamento é, também, freqüente em casos de doenças graves.
Centenas de estudos têm investigado a relação entre o envolvimento religioso e saúde mental. A maioria deles revela que quanto maior o envolvimento religioso, maior o bem-estar e a saúde mental. O uso positivo da religião esteve associado não só a melhores resultados físicos e mentais em pacientes com enfermidades graves, como também entre as vítimas de traumas psicológicos, por exemplo, pessoas afetadas por catástrofes naturais.
O uso da religião para lidar com problemas, no entanto, nem sempre está associado a melhores resultados. Um estudo longitudinal de dois anos com pacientes idosos enfermos mostrou que o uso negativo da religião (como questionamentos do tipo “Deus me abandonou” ou “Deus não me ama” ou “Foi obra do demônio”), esteve associado a um maior índice de mortalidade, mesmo após ser feito controle das variáveis demográfi cas de saúde física e saúde mental.
ESPIRITUALIDADE E TRAUMA
Uma recente meta-análise de 49 trabalhos, envolvendo um total de 13.512 indivíduos, investigou a associação entre o uso da religião (no enfrentamento de traumas) e o ajustamento psicológico ao estresse. O uso positivo da religião teve uma relação positiva moderada (r=0,38) com o ajustamento psicológico positivo e uma correlação inversa discreta (r=-0,12) com o ajustamento psicológico negativo. Por outro lado, o uso negativo da religião mostrou uma correlação positiva (r=0,22) com o ajustamento psicológico negativo. Os autores discutem que “diferentes tipos de situações podem ter diferentes implicações para o enfrentamento e o ajustamento psicológico frente ao estresse”. O estudo não forneceu descrições dos tipos de situações envolvidas. Contudo, podemos entender que os diálogos internos, processados com o enquadre religioso, variam sensivelmente de acordo com a orientação através da qual as pessoas matizam suas representações do fato ocorrido. Isto é: as sínteses cognitivas extraídas dos diálogos subjetivos podem orientar as respostas comportamentais e emocionais. Há necessidade de pesquisas mais extensas a respeito do impacto de diferentes formas de enfrentamento pela religiosidade e espiritualidade sobre o ajustamento a experiências traumáticas.
A dor do trauma pode se tornar mais suportável e breve por meio da fé pela fé ou pela escolha de alguma religião específi ca
Um outro estudo que destacou uma possível conexão entre espiritualidade, religiosidade e trauma investigou 1.385 veteranos de guerra em tratamento de TEPT. A experiência de matar outras pessoas e de fracassar em evitar a morte de companheiros enfraqueceu a fé dos veteranos. Curiosamente, a gravidade dos sintomas de TEPT e difi culdades na adaptação social não se mostraram como fatores preditivos tão fortes do uso continuado dos serviços de saúde mental quanto a fé religiosa enfraquecida. Os autores chamam atenção à possibilidade de que a motivação primária dos veteranos que buscam o tratamento possa ser a procura por um signifi cado e uma razão para suas experiências traumáticas. Isto sugere que a espiritualidade possa desempenhar uma função mais importante do que se supunha no tratamento do TEPT. Ao rever onze estudos empíricos sobre a associação entre espiritualidade, religiosidade e crescimento pós-traumático, Shaw e colegas (2005) relataram três principais achados: (I) a espiritualidade e a religião são geralmente, embora nem sempre, benéfi cas para lidar com as conseqüências do trauma; (II) experiências traumáticas podem conduzir a um aprofundamento da religiosidade e da espiritualidade, e (III) o uso produtivo da religião, a abertura espiritual/ religiosa, a prontidão para enfrentar questões existenciais, a participação religiosa e a religiosidade intrínseca estão associados de forma característica ao crescimento pós-traumático.
ESPERANÇA E ENFRENTAMENTO
Entre os importantes ganhos adaptativos da fé, mencionamos a potencialização da vontade e o enfrentamento de difi culdades severas por meio da confi ança. A falta de confi ança e esperança, por outro lado, pode favorecer o esmorecimento em face ao trauma. Pargament (1997) sugeriu que o uso da religiosidade e espiritualidade para o enfrentamento do trauma tem algo especial a oferecer: pode, de maneira única, capacitar os indivíduos a responder a situações em que tenham que se deparar com os limites do poder e do controle humanos no confronto com a vulnerabilidade e a fi nitude. Além disso, crenças e práticas religiosas podem reduzir a sensação de perda do controle e de desamparo; podem fornecer uma estrutura cognitiva capaz de atenuar o sofrimento e ainda fortalecer o indivíduo à reconstrução de sua vida.
SOLIDÃO, VAZIO, DESESPERANÇA E
DESAMPARO SÃO PALAVRAS UTILIZADAS, COM
FREQÜÊNCIA,POR INDIVIDUOS TRAUMATIZADOS
Trauma Psicológico e Neurociência
A Neurociência mostra que, mais do que registros factuais, o que o cérebro armazena são traços de informações posteriormente usados para reconstruir as memórias, as quais nem sempre representam um retrato fi dedigno de uma experiência passada. Sempre que um acontecimento traumático é recordado, o mesmo pode sofrer mudanças cognitivas e emocionais. Além disso, estudos com neuroimagem funcional de pessoas com memórias traumáticas mostraram uma atenuação da atividade no córtex pré-frontal (relacionado à classifi cação e à categorização das experiências) e no hipocampo (envolvido nos processos de síntese, aprendizagem e memória), assim como maior atividade da amígdala (área do cérebro relacionada à expressão do medo).
A maior parte das pesquisas neurofuncionais com provocação de sintomas (evocação do trauma) em indivíduos com TEPT mostrou atividade acentuada da amígdala e concomitante decréscimo da atividade no córtex pré-frontal. O córtex pré-frontal tem projeções neurais robustas para a amígdala e para estruturas temporais-mediais e talâmicas (memória de longo prazo). A menor atividade cortical pré-frontal envolvida na atenuação do feedback negativo da atividade da amígdala pode obstruir o processamento de sínteses cognitivas, assim como representar uma extinção defi - ciente das respostas ao medo e desregulação emocional.
Alguns estudos neurofuncionais mostram, também, uma diminuição signifi cativa da atividade na área de Broca relacionada à tradução das experiências pessoais em uma linguagem comunicável. Esse achado é compatível com a difi culdade que indivíduos com TEPT têm para verbalizar um acontecimento traumático numa narrativa estruturada. O conjunto das pesquisas com neuroimagem reforça a natureza não-verbal das lembranças traumáticas em voluntários com TEPT e uma expressão mais verbal/narrativa das memórias traumáticas em voluntários sem TEPT. Assim, o processamento narrativo, a estruturação semântica da memória e a geração de sínteses cognitivas – indicadores do processamento pré-frontal – são desafi os à psicoterapia, para que as respostas emocionais exacerbadas – indicadoras da atividade do complexo amigdalar – sejam arrefecidas. Construir novas narrativas, baseadas em percepções saudáveis, pode facilitar a integração dos traços mnêmicos traumáticos e dos fragmentos sensoriais numa nova síntese cognitiva, contribuindo dessa forma para diminuir os sintomas do TEPT.
O conceito de enfrentamento e superação pelo uso da religiosidade envolve muitos aspectos cognitivos. Exemplos de enfrentamento positivo incluem: reavaliação benevolente (buscando uma lição divina para o acontecimento); apoio espiritual (buscando conforto por meio do amor e cuidado divinos); entrega religiosa ativa (fazendo o que é possível quanto às responsabilidades pessoais e colocando o resto nas mãos de Deus); busca de uma conexão espiritual (considerando que a vida faz parte de uma força espiritual maior); busca de uma direção religiosa (rezando para encontrar uma nova razão para viver). Tais crenças infl uenciam a interpretação dos acontecimentos da vida e a atribuição de signifi cado e coerência. Essa estrutura narrativa pode contribuir para a integração das sensações e emoções dispersas das experiências traumáticas no sentido da superação. Apoiando essa hipótese, estudos com neuroimagem funcional sugerem que a integração de fragmentos emocionais e sensoriais do trauma por meio de uma narrativa estruturada parece ser um fator-chave à superação (veja quadro Trauma psicológico e Neurociência). Futuros estudos precisarão investigar as implicações clínicas e neurofuncionais dos aspectos cognitivos do uso da religiosidade e espiritualidade no enfrentamento do trauma.
Embora as crenças espirituais e religiosas possam ser importantes para o desenvolvimento e o crescimento após o trauma, os terapeutas não têm por conduta incentivar qualquer sistema de crenças em particular. Por outro lado, terapeutas que trabalham com indivíduos traumatizados devem estar confortáveis com clientes que levantem assuntos existenciais e espirituais. É uma necessidade terapêutica e um dever ético o respeito a estas opiniões, a empatia, assim como a continência à realidade subjetiva que o cliente traz, ainda que os profi ssionais não compartilhem das mesmas crenças.
RESILIÊNCIA
Crer em algo
Há muitas religiões e cada uma delas tem seu próprio jeito de reverenciar uma divindade e de se posicionar no mundo, recebendo diferentes nomes e conquistando seus adeptos. As mais difundidas são: Cristianismo, Maometismo, Taoísmo, Hinduísmo, Confucionismo, Budismo, Judaísmo e Afro-tradicionais.
As pesquisas sobre trauma apontaram para a importância das diferenças individuais quanto à resiliência – capacidade de atravessar difi culdades e recuperar uma qualidade de vida satisfatória – e à vulnerabilidade como fatores-chave na intensidade e duração dos sintomas relacionados ao trauma. Alguns traços de personalidade agem como “protetores” aos indivíduos expostos a estresse intenso. Baseado em observações de sobreviventes de campos de concentração nazistas que foram capazes de manter-se saudáveis e levar uma vida normal apesar do que tinham vivido, Antonovsky desenvolveu o conceito de “sentido de coerência interna” (SCI). O SCI está fundamentado em três componentes: compreensibilidade (a vida e seus acontecimentos têm sentido em termos cognitivos; é a habilidade de compreender a situação como um todo); signifi cabilidade (a vida faz sentido do ponto de vista emocional; os problemas são vistos como desafi os e não como fardos); manejabilidade (habilidade para usar os recursos disponíveis para lidar com os acontecimentos da vida). Esse conceito procura fornecer alguns indicadores dos motivos pelos quais algumas pessoas conseguem permanecer bem apesar de vivenciarem situações severamente estressoras. O SCI foi investigado em mais de 500 estudos e esteve fortemente associado a uma melhor percepção da saúde, particularmente da saúde mental. Pessoas com alto SCI mostraram-se mais resilientes sob condições de estresse. Apoiando esses resultados, outros estudos demonstram que um fator decisivo para desenvolver a resiliência pode ser o modo como o indivíduo processa e elabora a experiência. Pessoas que desenvolvem padrões interpretativos de enfrentamento e tentam modifi car o presente de forma positiva, mostraram maior facilidade para superar traumas psicológicos. Por outro lado, padrões que envolvem autopiedade, abandono, autovitimização e autodepreciação podem intensifi car as emoções negativas relacionadas às lembranças traumáticas e exacerbar o sofrimento.
Estudos demonstraram que a religiosidade também pode ajudar o enfrentamento do trauma através do apoio social, que em geral desencoraja comportamentos autodestrutivos, como o uso de drogas e álcool, e incentiva o perdão e a continuidade da vida alinhada à saúde. Exemplos de superação de indivíduos que aprenderam e se desenvolveram a partir de suas experiências traumáticas, que cresceram espiritualmente e adquiriram tranqüilidade ao lidar com as difi culdades podem ser referências para novos processamentos e enquadres cognitivos às vítimas de traumas. A experiência clínica e a literatura fornecem muitos exemplos e depoimentos de pessoas que perderam entes queridos, que foram seqüestradas, que sofreram acidentes, amputações, abuso sexual, entre outros episódios traumáticos, e conseguiram restaurar a confi ança para levar adiante sua vida com qualidade.
Pessoas resilientes encaram os problemas como desafi os, não como fardos, e suportariam mais os traumas
Há múltiplos e, algumas vezes, inesperados caminhos para a resiliência. Uma vez que a desesperança é fator de risco para o TEPT tanto quanto o desamparo, uma hipótese razoável seria a de que a continência e o amparo podem proteger os indivíduos expostos a ocorrências potencialmente traumáticas. Vale lembrar que o Brasil possui uma importante expressão religiosa sincrética e alta prevalência de praticantes de religiosidade/espiritualidade – apenas 7,3% da população não têm religião. Contudo, a integração das dimensões espirituais e religiosas dos clientes em seus tratamentos requer alta qualidade de conhecimento e habilidades para alinhar as informações coletadas sobre as crenças e valores à efi cácia terapêutica.
Finalmente, nossa compreensão sobre a adaptação humana ao trauma se estende aos poucos. Dado o reconhecimento dos efeitos potenciais das crenças religiosas e espirituais nos comportamentos resilientes, os estudos nesse âmbito devem continuar!
sábado, 2 de novembro de 2013
Angústia é doença e tem cura
Diferentemente do medo ou da ansiedade, que são experimentados pela maioria das pessoas, a angústia acomete menos de 50% da população. "Em geral, meus pacientes relatam uma agonia mental sem gatilho aparente, atrelada a um sufoco semelhante ao da asma, e uma dor ou compressão no peito", descreve o psiquiatra Valentim Gentil.
Incentivar o diagnóstico e um tratamento personalizado é a proposta de Gentil, que assina o artigo intitulado "Why Anguish?" - em português, Por que angústia? -, divulgado na publicação científica inglesa Journal of Psychopharmacology. Isso porque, nas discussões entre especialistas do mundo todo, o sentido dessa emoção se esvaziou ao longo do tempo. E frequentemente ela é confundida com o distúrbio de ansiedade ou de pânico. "Mas são comportamentos mentais diferentes, com padrões de ativação cerebral distintos", defende Gentil. "A ansiedade é uma apreensão exagerada em relação ao futuro, enquanto a angústia é um sofrimento relacionado ao presente."
"Meus pacientes costumam levar as mãos ao peito e reportar um sentimento de vazio. Sentem conflitos diante das inúmeras possibilidades de escolhas no dia a dia e questionam o sentido de sua existência", conta a psicanalista paulistana Maria de Lourdes Félix, que auxilia Gentil nas pesquisas sobre a face psicológica da angústia. "Em casos extremos, essas pessoas são dominadas pela introversão. Elas perdem a capacidade de análise, de lidar com o cotidiano, de interagir socialmente. Ficam paralisadas."
À luz do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), a psicóloga Marília Dantas, da Universidade Estácio de Sá, em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, traduz o mal-estar: "O ser humano sente desamparo, incerteza, falta de controle diante da liberdade de decidir. Optar por um caminho significa correr riscos, abrir mão das alternativas. Isso é angustiante".
Reconhecer um quadro de angústia é uma função que cabe a especialistas. Mas os angustiados de plantão podem contribuir, fornecendo detalhes de como se sentem, perguntando, por exemplo, o que é angústia para você? As respostas variaram. "É pensar como seria minha vida se eu tivesse estudado psicologia." Ou "É um beco sem saída dentro do peito". Ou ainda "É uma incerteza sobre as consequências das decisões que tomei".
Infelizmente, a maioria dos angustiados só procura ajuda especializada quando a sensação ruim beira o insuportável. "Eles chegam ao pronto-socorro com dor e opressão no tórax, peso e desconforto no peito", confirma o cardiologista César Jardim, supervisor do pronto-socorro do Hospital do Coração, em São Paulo. Os sintomas se assemelham aos de problemas cardiológicos, como infarto. "Mas os problemas cardiovasculares só se confirmam em 30% dos casos", estima. Ele conta que, depois de realizar exames e apontar que o sujeito está em condições perfeitas de saúde, os pacientes confessam que vêm se sentindo nervosos e... angustiados.
Quando é assim, excluída a presença de doenças físicas, o passo seguinte deveria ser a visita a um psiquiatra. "Há hipóteses de que a angústia seja desencadeada por uma maior ativação de uma região chamada ínsula, no córtex cerebral, relacionada à percepção de funções viscerais, como as do coração, do diafragma e dos pulmões", explica Valentim Gentil. "Por isso, acreditamos que suas vítimas possam responder bem a calmantes chamados benzodiazepínicos, a alguns antipsicóticos e a uma classe de antidepressivos conhecida como tricíclicos", continua. "A imipramina é um dos principais medicamentos desse grupo e se mostra eficaz, apesar de promover eventuais efeitos colaterais, como tonturas e alterações cardíacas", completa seu colega Jair Mari, da Universidade Federal de São Paulo. Essa droga modula neurotransmissores como a noradrenalina, substâncias que agem no cérebro e controlam as emoções.
O ideal é complementar o tratamento com o de um psicólogo ou psicanalista. "Trabalhamos o desenvolvimento emocional, fazendo com que o paciente reflita e traduza seus pensamentos, criando condições para contornar sentimentos que julga insuportáveis", explica Maria de Lourdes. A angústia é um problema de saúde e necessita de acompanhamento. Se ela anda sufocando-o, chega de sofrer em silêncio: busque auxílio e afrouxe, de vez, esse nó dentro do peito.
Publicado em 12/09/2013
Adriana Toledo
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