domingo, 2 de junho de 2013

O processo de esquecimento dirigido e as alterações do estado de humo

VICTOR CLAUDIO (*)(*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lis- boa. Bolseiro PRAXIS XXI Quantas vezes tentamos recordar algo e não conseguimos ? Quantas vezes queremos esquecer algo e é im- possível ? Quantas vezes recordamos o que não quere- mos? Esquecemos aquilo que queremos esquecer? Como se processa o esquecimento dirigido? Podemos tentar responder a estas questões si- tuando-nos no paradigma do processamento de informação. Assim, no primeiro caso, querer recordar e não conseguir, prende-se com uma inibição na evocação da informação. Podemos definir o conceito de inibição na evocação de informação, como um processo adaptativo que suprime ou bloqueia a informa- ção presente na memória. O carácter adaptativo manifesta-se através da disponibilização da memória para novas aquisi- ções, i.e., este processo, permitindo esquecer aquilo que não é actualmente necessário, dispo- nibiliza a memória para aquilo que é pertinente. A disponibilização da memória relaciona-se in- timamente com a supressão da informação. Esta, actuando directamente sobre a informação a inibir, tem como objectivo evitar a interferência de material mnemónico mais antigo na nova in- formação adquirida ou evitar recordações desa- gradáveis para o sujeito. O bloqueamento de informação prende-se com o facto de que quando são activados deter- minados items na memória, outros que perten- cem à mesma categoria tem o acesso bloqueado. A inibição do acesso à informação é também responsável pelo esquecimento dirigido, i.e., es- quecimento desencadeado por uma instrução no sentido de esquecer a informação. Podemos então considerar o conceito de ini- bição da evocação da informação em dois senti- dos:Como bloqueamento : neste caso, a inibição seria devida ao facto de quando o sujeito activa determinados items da memória, outros perten- centes à mesma categoria, terem o acesso blo- queado. Como supressão : sendo este o sentido em que o conceito revela de forma mais explícita as suas características adaptativas. Já que a supressão da informação, tem como objectivo evitar a inter- ferência de material mnemónico mais antigo nas novas aquisições de informação ou evitar re- cordações desagradáveis para o sujeito. O pro- cesso de supressão, actua directamente sobre a informação a inibir. Bjork (1989), alerta para a importância de di- ferenciar o conceito de inibição da evocação de informação, do conceito de recalcamento, defini- do por Freud (1914). Este seria um mecanismo de defesa, como tal não consciente, enquanto que na inibição da evocação da informação há uma intenção consciente de supressão ou blo- queamento da informação Respondemos assim à primeira e última ques- tão que colocamos. A resposta à segunda, tercei- ra e quarta questões, prende-se com uma inefi- ciente actuação do processo de inibição de infor- mação. Além do processo de inibição da evocação de informação, há outro factor que também in- fluencia o acesso e evocação da informação contida na memória. Falamos do estado de hu- mor do sujeito. Eich e Metcalfe (1989), preconizam que a ca- pacidade de acesso e evocação da informação na memória, está relacionada com o estado de hu- mor com que essa informação foi codificada, e com o estado de humor com que é evocada. Se existe diferença nos tipos de estados de humor, entre a codificação e a evocação de informação, a dificuldade de esta última se realizar é maior. Um trabalho de Weingartner e col. (1977), mostra que as associações de palavras realizadas por sujeitos em crise maníaca, eram evocadas mais 97% nesse estado de humor, do que em estado de humor normal. Realçam também o facto de que as alterações da memória são mais notórias quando o estado de humor sofre modi- ficações radicais (p.e. alegria-tristeza ou vice- -versa). Clark e col. (1983), baseando-se no facto de existir uma relação directamente proporcional entre o nível de alerta e o estado de humor, i.e., o nível de alerta é elevado nos estados de humor alegre e o contrário, afirmam que as dificuldades de evocação da informação estão relacionados com um baixo nível de alerta, desencadeado pe- la existência de um estado de humor negativo. Num trabalho que realizámos (V. Claudio, 1987), podemos observar que os sujeitos depri- midos, quando comparados com os sujeitos esquizofrénicos e voluntários normais, apresen- tam um nível de alerta e de memória inferiores. Nos trabalhos de Eich e Metclfe (1989), os re- sultados indicam que apenas uma grande mo- dificação do alerta e do estado de humor, origi- nam uma pior evocação, que a provocada por uma grande mudança no estado de humor. Apon- tam também no sentido de que a evocação de acontecimentos internos, i.e., construidos pelo sujeito, estão mais dependentes das alterações do estado de humor do que acontecimentos exter- nos. Podemos afirmar, que existem dois efeitos do estado de humor sobre a memória: Dependência do humor : A evocação de acon- tecimentos, independentemente do valor afectivo que o sujeito lhe atribui, é tanto melhor quando realizada com o mesmo estado de humor com que foram codificados. Congruência do humor : Se existir uma simila- ridade entre o contéudo afectivo que o sujeito atribui ao acontecimento e o estado de humor no momento da codificação ou evocação, estes são facilitados. Pensamos ser importante clarificar a noção de esquecimento dirigido, i.e., o esquecimento de uma determinada informação depois de uma instrução nesse sentido. Por exemplo, antes de se apresentar ao sujeito, uma série de cinco dígi- tos, diz-se que ele deve apreender a série que vai ver. No fim desta série diz-se que aqueles dígitos serviram apenas para treinar, que os deve esque- cer e que deve sim apreender a série que vai ver a seguir. Depois da apresentação desta segunda série, pedimos ao sujeitos que nos diga os dígitos que se lembra. Se ele não evocar nenhum dos dí- gitos da primeira série, a instrução de esqueci- mento dirigido foi 100% eficaz. Os trabalhos de Bjork (1970), indicam que a instrução para esquecer, produz mais resultado quando fornecida antes da apresentação dos es- tímulos a recordar, i.e., a instrução para ter efeito, deve surgir antes da representação dos items na memória se estabilizar. Bjork (1972), refere que o processo de esque- cimento dirigido pode ser influenciado por dois mecanismos, presentes no processo de codifica- ção da memória: A Enumeração Selectiva : Que leva o sujeito a centra-se apenas nos items que surgem depois da instrucção para esquecer. Os Agrupamentos Diferenciados : Que leva o sujeito a agrupar de forma separada items a lembrar e items a esquecer. Assim, o processo de esquecimento dirigido seria explicado através da utilização dos meca- nismos de codificação. Diversos trabalhos (em que salientamos o de Bjork & Geiselman, em 1978), demostram empi- ricamentre que apenas estes mecanismos relacio- nados com a codificação da informação, não são suficientes para explicar o esquecimento dirigi- do. Bjork (1978) defende a existência de um Me- canismo de Desaparecimento relacionado com esse fenómeno. Posteriormente, Geiselman e col. (1983) descrevem este mecanismo como a inibição da evocação da informação. Tomando como referencial estes pressupostos e os trabalhos empíricos que os suportam, po- demos afirmar que o processo de esquecimento dirigido, será resultado de uma modificação na codificação e de uma inibição na evocação da in- formação. Pensamos ser importante referir, ainda que de forma sucinta, o modelo cognitivo da depressão com que trabalhamos. Segundo o modelo proposto por Champion e Power (1986), os indivíduos com tendência para a depressão, possuem um objectivo sobrevalori- zado para cuja execução estão orientados ou um papel sobrevalorizado, que assume geralmente a forma de um objectivo interpessoal. O sujeito subvaloriza as outras áreas da sua vida, em rela- ção ao objectivo ou papel. Estes, têm como uma das funções, inibir partes negativas e inaceitáveis do modelo de self do sujeito. O indivíduo com tendência para a depressão, caracteriza-se tam- bém por uma vulnerabilidade aos acontecimen- tos ou dificuldades que ameaçam o objectivo ou papel dominante. Assim, a ocorrência de um acontecimento que ameaça a perda destes, é acompanhada pela perda das suas funções inibitórias. Desta forma, o indivíduo experiencia uma perda intrapsíquica de controlo, e um au- mento de pensamentos, imagens e emoções in- desejáveis. Tal perda ou ameaça, deixa ainda no indivíduo um sentimento de vazio, de ausência de objectivos e de inutilidade, já que se mantêm poucas ou nenhumas alternativas de valor. Podemos observar nos sujeitos deprimidos: - A construção de um modelo mental negati- vo do self - Alteração da tríade cognitiva (de si, do pre- sente, do futuro) - Usa um mecanismo de abstração selectivo, processando a informação de forma parcial i.e., apenas a informação negativa. - Os pensamentos automáticos negativos, que se caracterizam por ser pouco razoáveis, disfuncionais, repetitivos e idiossincráticos, embora vivenciados pelo sujeito como plau- síveis, representam o material cognitivo di- rectamente acessível e que espelha as contí- nuas auto-avaliações negativaas que o sujei- to deprimido realiza. Como facilmente se pode concluir, nestes su- jeitos, o processo de inibição da evocação de in- formação, com o seu objectivo de adpatação não é realizado (recordemos que uma das funções da supressão da informação é impedir as recorda- ções dolorosas, para o sujeito HIPÓTESES As hipóteses em estudo são as seguintes: A 1.ª hipótese é a de que existe uma desinibi- ção no acesso à informação no sujeito depres- sivo, que não permite que a instrução de esque- cer a 1.ª metade de uma lista de adjectivos, de- sencadeie com a mesma potência que em outros grupos, um processo de esquecimento dirigido. O sujeito deprimido é submergido pela contínua evocação da informação com valência negativa, o que não lhe permite actualizar a informação nem impedir as recordações dolorosas. Isto leva também à 2.ª hipótese, de que o estado de humor do sujeito deprimido implica um maior esqueci- mento dos adjectivos com valência positiva, comparativamente com os de valência negativa , independentemente da sua posição numa lista de adjectivos. CONCLUSÔES Os resultados que obtivemos no 1.º estudo, não vão ao encontro da primeira hipótese que co- locámos, já que como se observou, qualquer dos grupos – deprimidos e não deprimidos – não apresentaram diferenças significativas na evoca- ção de adjectivos da 1.ª série, i.e., a instrução de esquecer, embora tenha levado a uma menor evocação de adjectivos, em ambos os grupos, não originou uma menor evocação de adjectivos positivos em relação aos adjectivos negativos, no grupo de sujeitos deprimidos. Assim, a instrução de esquecimento dirigido funcionou de igual forma para o grupo de sujeitos deprimidos e o dos sujeitos não deprimidos. No segundo estudo, em que se introduziu o processamento auto-referente dos adjectivos, podemos observar que a instrução de esquecer leva a que o grupo de sujeitos não deprimidos evoque menos adjectivos, que o grupo de sujei- tos não deprimidos. Contudo, o grupo de sujeitos deprimidos evoca mais adjectivos negativos do que positivos, da 1.ª série. Isto leva, a que o grupo de sujeitos deprimidos não apresentem o bias positivo que se observa no grupo de sujeitos não deprimidos, e que tam- bém se observa no 1.º estudo Podemos considerar que a perda deste bias positivo é desencadeada pelo processamenteo auto-referente dos adjectivos. A inclusão do self no processamento, que leva a um bias positivo nos sujeitos não deprimidos, é concordante com outros estudos de memória, como por exemplo os testes auto- biográficos de memória. No que se refere ao acesso à informação, os resultados dos dois estudos comprovam que existe, no grupo de sujeitos deprimidos, uma desinibição do acesso à informação. Assim, quando deliberadamente tentam memorizar – quando a instrução que devem memorizar é fornecida –, o grupo de sujeitos deprimidos pro- cessa, retém e evoca preferencialmente palavras negativas, i.e., palavras que são congruentes com o seu estado de humor. Este aspecto reforça a existência, neste grupo, de uma atenção foca- lizada na informação com valência negativa. Podemos relacionar este aspecto, com as pertur- bações no processamento de informação nos su- jeitos deprimidos, causado pela existência de um modelo mental negativo do self e pelos modelos mentais que este gera. Os modelos mentais, noção introduzida por Johnson-Laird (1983), são fenómenos não cons- cientes, situados na memória de evocação. As- sim, levam a que o sujeito deprimido processe e retenha apenas a informação negativa, congruen- te com o seu estado de humor, i.e., os modelos mentais funcionam como um filtro selectivo no processamento de informação. O facto de os sujeitos deprimidos, possuirem regras muito rigídas, leva a que os modelos mentais que constroem, se apresentem, na maio- ria das vezes, como incontestáveis. Seria esta, a origem dos sentimentos de desvalorização e pes- simismo típico dos deprimidos. Os modelos mentais, aparecem clinicamente, em forma de acontecimentos cognitivos. Por exemplo, auto-conceito, pensamentos automáti- cos. Os resultados observados, no 2.º estudo, nos sujeitos deprimidos, baixo auto-conceito, baixa atribuição do significado que pode ter para os outros, reduzida competência em relação aos problemas e elevado valor nas atitudes disfun- cionais, reforçam a existência de modelos men- tais negativos, neste grupo. Esta passagem dos modelos mentais – que são estruturas profundas – para acontecimentos cognitivos – estruturas superficiais – é mediati- zada pelos processos cognitivos. Isto permite- -nos afirmar, que quando existe distorção, esta é reflexo de uma perturbação estável e profunda dos mecanismos de pensamento lógico. Para terminar citaríamos Ribot (1982): Sem a total obliteração de um imenso núme- ro de estados de consciência, e a momentânea inibição de ainda mais, a recolha de informação seria impossível. O esquecimento, excepto em certos casos, não é uma alteração da memória mas sim uma condição para a saúde e a vida. »

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