VICTOR CLAUDIO (*)(*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lis-
boa. Bolseiro PRAXIS XXI
Quantas vezes tentamos recordar algo e não
conseguimos ?
Quantas vezes queremos esquecer algo e é im-
possível ?
Quantas vezes recordamos o que não quere-
mos?
Esquecemos aquilo que queremos esquecer?
Como se processa o esquecimento dirigido?
Podemos tentar responder a estas questões si-
tuando-nos no paradigma do processamento de
informação.
Assim, no primeiro caso, querer recordar e
não conseguir, prende-se com uma inibição na
evocação da informação.
Podemos definir o conceito de inibição na
evocação de informação, como um processo
adaptativo que suprime ou bloqueia a informa-
ção presente na memória.
O carácter adaptativo manifesta-se através da
disponibilização da memória para novas aquisi-
ções, i.e., este processo, permitindo esquecer
aquilo que não é actualmente necessário, dispo-
nibiliza a memória para aquilo que é pertinente.
A disponibilização da memória relaciona-se in-
timamente com a supressão da informação. Esta,
actuando directamente sobre a informação a
inibir, tem como objectivo evitar a interferência
de material mnemónico mais antigo na nova in-
formação adquirida ou evitar recordações desa-
gradáveis para o sujeito.
O bloqueamento de informação prende-se
com o facto de que quando são activados deter-
minados items na memória, outros que perten-
cem à mesma categoria tem o acesso bloqueado.
A inibição do acesso à informação é também
responsável pelo esquecimento dirigido, i.e., es-
quecimento desencadeado por uma instrução no
sentido de esquecer a informação.
Podemos então considerar o conceito de ini-
bição da evocação da informação em dois senti-
dos:Como
bloqueamento
: neste caso, a inibição
seria devida ao facto de quando o sujeito activa
determinados items da memória, outros perten-
centes à mesma categoria, terem o acesso blo-
queado.
Como
supressão
: sendo este o sentido em que
o conceito revela de forma mais explícita as suas
características adaptativas. Já que a supressão da
informação, tem como objectivo evitar a inter-
ferência de material mnemónico mais antigo
nas novas aquisições de informação ou evitar re-
cordações desagradáveis para o sujeito. O pro-
cesso de supressão, actua directamente sobre a
informação a inibir.
Bjork (1989), alerta para a importância de di-
ferenciar o conceito de inibição da evocação de
informação, do conceito de recalcamento, defini-
do por Freud (1914). Este seria um mecanismo
de defesa, como tal não consciente, enquanto
que na inibição da evocação da informação há
uma intenção consciente de supressão ou blo-
queamento da informação
Respondemos assim à primeira e última ques-
tão que colocamos. A resposta à segunda, tercei-
ra e quarta questões, prende-se com uma inefi-
ciente actuação do processo de inibição de infor-
mação.
Além do processo de inibição da evocação de
informação, há outro factor que também in-
fluencia o acesso e evocação da informação
contida na memória. Falamos do estado de hu-
mor do sujeito.
Eich e Metcalfe (1989), preconizam que a ca-
pacidade de acesso e evocação da informação na
memória, está relacionada com o estado de hu-
mor com que essa informação foi codificada, e
com o estado de humor com que é evocada. Se
existe diferença nos tipos de estados de humor,
entre a codificação e a evocação de informação,
a dificuldade de esta última se realizar é maior.
Um trabalho de Weingartner e col. (1977),
mostra que as associações de palavras realizadas
por sujeitos em crise maníaca, eram evocadas
mais 97% nesse estado de humor, do que em
estado de humor normal. Realçam também o
facto de que as alterações da memória são mais
notórias quando o estado de humor sofre modi-
ficações radicais (p.e. alegria-tristeza ou vice-
-versa).
Clark e col. (1983), baseando-se no facto de
existir uma relação directamente proporcional
entre o nível de alerta e o estado de humor, i.e., o
nível de alerta é elevado nos estados de humor
alegre e o contrário, afirmam que as dificuldades
de evocação da informação estão relacionados
com um baixo nível de alerta, desencadeado pe-
la existência de um estado de humor negativo.
Num trabalho que realizámos (V. Claudio,
1987), podemos observar que os sujeitos depri-
midos, quando comparados com os sujeitos
esquizofrénicos e voluntários normais, apresen-
tam um nível de alerta e de memória inferiores.
Nos trabalhos de Eich e Metclfe (1989), os re-
sultados indicam que apenas uma grande mo-
dificação do alerta e do estado de humor, origi-
nam uma pior evocação, que a provocada por
uma grande mudança no estado de humor. Apon-
tam também no sentido de que a evocação de
acontecimentos internos, i.e., construidos pelo
sujeito, estão mais dependentes das alterações do
estado de humor do que acontecimentos exter-
nos.
Podemos afirmar, que existem dois efeitos do
estado de humor sobre a memória:
Dependência do humor
: A evocação de acon-
tecimentos, independentemente do valor afectivo
que o sujeito lhe atribui, é tanto melhor quando
realizada com o mesmo estado de humor com
que foram codificados.
Congruência do humor
: Se existir uma simila-
ridade entre o contéudo afectivo que o sujeito
atribui ao acontecimento e o estado de humor no
momento da codificação ou evocação, estes são
facilitados.
Pensamos ser importante clarificar a noção de
esquecimento dirigido, i.e., o esquecimento de
uma determinada informação depois de uma
instrução nesse sentido. Por exemplo, antes de
se apresentar ao sujeito, uma série de cinco dígi-
tos, diz-se que ele deve apreender a série que vai
ver. No fim desta série diz-se que aqueles dígitos
serviram apenas para treinar, que os deve esque-
cer e que deve sim apreender a série que vai ver
a seguir. Depois da apresentação desta segunda
série, pedimos ao sujeitos que nos diga os dígitos
que se lembra. Se ele não evocar nenhum dos dí-
gitos da primeira série, a instrução de esqueci-
mento dirigido foi 100% eficaz.
Os trabalhos de Bjork (1970), indicam que a
instrução para esquecer, produz mais resultado
quando fornecida antes da apresentação dos es-
tímulos a recordar, i.e., a instrução para ter
efeito, deve surgir antes da representação dos
items na memória se estabilizar.
Bjork (1972), refere que o processo de esque-
cimento dirigido pode ser influenciado por dois
mecanismos, presentes no processo de codifica-
ção da memória:
A
Enumeração Selectiva
: Que leva o sujeito a
centra-se apenas nos items que surgem depois da
instrucção para esquecer.
Os
Agrupamentos Diferenciados
: Que leva o
sujeito a agrupar de forma separada items a
lembrar e items a esquecer.
Assim, o processo de esquecimento dirigido
seria explicado através da utilização dos meca-
nismos de codificação.
Diversos trabalhos (em que salientamos o de
Bjork & Geiselman, em 1978), demostram empi-
ricamentre que apenas estes mecanismos relacio-
nados com a codificação da informação, não são
suficientes para explicar o esquecimento dirigi-
do.
Bjork (1978) defende a existência de um Me-
canismo de Desaparecimento relacionado com
esse fenómeno. Posteriormente, Geiselman e
col. (1983) descrevem este mecanismo como a
inibição da evocação da informação.
Tomando como referencial estes pressupostos
e os trabalhos empíricos que os suportam, po-
demos afirmar que o processo de esquecimento
dirigido, será resultado de uma modificação na
codificação e de uma inibição na evocação da in-
formação.
Pensamos ser importante referir, ainda que de
forma sucinta, o modelo cognitivo da depressão
com que trabalhamos.
Segundo o modelo proposto por Champion e
Power (1986), os indivíduos com tendência para
a depressão, possuem um objectivo sobrevalori-
zado para cuja execução estão orientados ou um
papel sobrevalorizado, que assume geralmente a
forma de um objectivo interpessoal. O sujeito
subvaloriza as outras áreas da sua vida, em rela-
ção ao objectivo ou papel. Estes, têm como uma
das funções, inibir partes negativas e inaceitáveis
do modelo de self do sujeito. O indivíduo com
tendência para a depressão, caracteriza-se tam-
bém por uma vulnerabilidade aos acontecimen-
tos ou dificuldades que ameaçam o objectivo ou
papel dominante. Assim, a ocorrência de um
acontecimento que ameaça a perda destes, é
acompanhada pela perda das suas funções
inibitórias. Desta forma, o indivíduo experiencia
uma perda intrapsíquica de controlo, e um au-
mento de pensamentos, imagens e emoções in-
desejáveis. Tal perda ou ameaça, deixa ainda no
indivíduo um sentimento de vazio, de ausência
de objectivos e de inutilidade, já que se mantêm
poucas ou nenhumas alternativas de valor.
Podemos observar nos sujeitos deprimidos:
- A construção de um modelo mental negati-
vo do self
- Alteração da tríade cognitiva (de si, do pre-
sente, do futuro)
- Usa um mecanismo de abstração selectivo,
processando a informação de forma parcial
i.e., apenas a informação negativa.
- Os pensamentos automáticos negativos, que
se caracterizam por ser pouco razoáveis,
disfuncionais, repetitivos e idiossincráticos,
embora vivenciados pelo sujeito como plau-
síveis, representam o material cognitivo di-
rectamente acessível e que espelha as contí-
nuas auto-avaliações negativaas que o sujei-
to deprimido realiza.
Como facilmente se pode concluir, nestes su-
jeitos, o processo de inibição da evocação de in-
formação, com o seu objectivo de adpatação não
é realizado (recordemos que uma das funções da
supressão da informação é impedir as recorda-
ções dolorosas, para o sujeito
HIPÓTESES
As hipóteses em estudo são as seguintes:
A 1.ª hipótese é a de que existe uma desinibi-
ção no acesso à informação no sujeito depres-
sivo, que não permite que a instrução de esque-
cer a 1.ª metade de uma lista de adjectivos, de-
sencadeie com a mesma potência que em outros
grupos, um processo de esquecimento dirigido.
O sujeito deprimido é submergido pela contínua
evocação da informação com valência negativa,
o que não lhe permite actualizar a informação
nem impedir as recordações dolorosas. Isto leva
também à 2.ª hipótese, de que o estado de humor
do sujeito deprimido implica um maior esqueci-
mento dos adjectivos com valência positiva,
comparativamente com os de valência negativa ,
independentemente da sua posição numa lista de
adjectivos.
CONCLUSÔES
Os resultados que obtivemos no 1.º estudo,
não vão ao encontro da primeira hipótese que co-
locámos, já que como se observou, qualquer
dos grupos – deprimidos e não deprimidos – não
apresentaram diferenças significativas na evoca-
ção de adjectivos da 1.ª série, i.e., a instrução de
esquecer, embora tenha levado a uma menor
evocação de adjectivos, em ambos os grupos,
não originou uma menor evocação de adjectivos
positivos em relação aos adjectivos negativos, no
grupo de sujeitos deprimidos. Assim, a instrução
de esquecimento dirigido funcionou de igual
forma para o grupo de sujeitos deprimidos e o
dos sujeitos não deprimidos.
No segundo estudo, em que se introduziu o
processamento auto-referente dos adjectivos,
podemos observar que a instrução de esquecer
leva a que o grupo de sujeitos não deprimidos
evoque menos adjectivos, que o grupo de sujei-
tos não deprimidos. Contudo, o grupo de sujeitos
deprimidos evoca mais adjectivos negativos do
que positivos, da 1.ª série.
Isto leva, a que o grupo de sujeitos deprimidos
não apresentem o bias positivo que se observa
no grupo de sujeitos não deprimidos, e que tam-
bém se observa no 1.º estudo Podemos considerar que a perda deste
bias
positivo é desencadeada pelo processamenteo
auto-referente dos adjectivos.
A inclusão do self no processamento, que
leva a um
bias
positivo nos sujeitos não
deprimidos, é concordante com outros estudos
de memória, como por exemplo os testes auto-
biográficos de memória.
No que se refere ao acesso à informação, os
resultados dos dois estudos comprovam que
existe, no grupo de sujeitos deprimidos, uma
desinibição do acesso à informação. Assim,
quando deliberadamente tentam memorizar –
quando a instrução que devem memorizar é
fornecida –, o grupo de sujeitos deprimidos pro-
cessa, retém e evoca preferencialmente palavras
negativas, i.e., palavras que são congruentes
com o seu estado de humor. Este aspecto reforça
a existência, neste grupo, de uma atenção foca-
lizada na informação com valência negativa.
Podemos relacionar este aspecto, com as pertur-
bações no processamento de informação nos su-
jeitos deprimidos, causado pela existência de um
modelo mental negativo do self e pelos modelos
mentais que este gera.
Os modelos mentais, noção introduzida por
Johnson-Laird (1983), são fenómenos não cons-
cientes, situados na memória de evocação. As-
sim, levam a que o sujeito deprimido processe e
retenha apenas a informação negativa, congruen-
te com o seu estado de humor, i.e., os modelos
mentais funcionam como um filtro selectivo no
processamento de informação.
O facto de os sujeitos deprimidos, possuirem
regras muito rigídas, leva a que os modelos
mentais que constroem, se apresentem, na maio-
ria das vezes, como incontestáveis. Seria esta, a
origem dos sentimentos de desvalorização e pes-
simismo típico dos deprimidos.
Os modelos mentais, aparecem clinicamente,
em forma de acontecimentos cognitivos. Por
exemplo, auto-conceito, pensamentos automáti-
cos. Os resultados observados, no 2.º estudo, nos
sujeitos deprimidos, baixo auto-conceito, baixa
atribuição do significado que pode ter para os
outros, reduzida competência em relação aos
problemas e elevado valor nas atitudes disfun-
cionais, reforçam a existência de modelos men-
tais negativos, neste grupo.
Esta passagem dos modelos mentais – que são
estruturas profundas – para acontecimentos
cognitivos – estruturas superficiais – é mediati-
zada pelos processos cognitivos. Isto permite-
-nos afirmar, que quando existe distorção, esta é
reflexo de uma perturbação estável e profunda
dos mecanismos de pensamento lógico.
Para terminar citaríamos Ribot (1982):
Sem a total obliteração de um imenso núme-
ro de estados de consciência, e a momentânea
inibição de ainda mais, a recolha de informação
seria impossível. O esquecimento, excepto em
certos casos, não é uma alteração da memória
mas sim uma condição para a saúde e a vida.
»
domingo, 2 de junho de 2013
O processo de esquecimento dirigido e as alterações do estado de humo
VICTOR CLAUDIO (*)(*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lis-
boa. Bolseiro PRAXIS XXI
Quantas vezes tentamos recordar algo e não
conseguimos ?
Quantas vezes queremos esquecer algo e é im-
possível ?
Quantas vezes recordamos o que não quere-
mos?
Esquecemos aquilo que queremos esquecer?
Como se processa o esquecimento dirigido?
Podemos tentar responder a estas questões si-
tuando-nos no paradigma do processamento de
informação.
Assim, no primeiro caso, querer recordar e
não conseguir, prende-se com uma inibição na
evocação da informação.
Podemos definir o conceito de inibição na
evocação de informação, como um processo
adaptativo que suprime ou bloqueia a informa-
ção presente na memória.
O carácter adaptativo manifesta-se através da
disponibilização da memória para novas aquisi-
ções, i.e., este processo, permitindo esquecer
aquilo que não é actualmente necessário, dispo-
nibiliza a memória para aquilo que é pertinente.
A disponibilização da memória relaciona-se in-
timamente com a supressão da informação. Esta,
actuando directamente sobre a informação a
inibir, tem como objectivo evitar a interferência
de material mnemónico mais antigo na nova in-
formação adquirida ou evitar recordações desa-
gradáveis para o sujeito.
O bloqueamento de informação prende-se
com o facto de que quando são activados deter-
minados items na memória, outros que perten-
cem à mesma categoria tem o acesso bloqueado.
A inibição do acesso à informação é também
responsável pelo esquecimento dirigido, i.e., es-
quecimento desencadeado por uma instrução no
sentido de esquecer a informação.
Podemos então considerar o conceito de ini-
bição da evocação da informação em dois senti-
dos:Como
bloqueamento
: neste caso, a inibição
seria devida ao facto de quando o sujeito activa
determinados items da memória, outros perten-
centes à mesma categoria, terem o acesso blo-
queado.
Como
supressão
: sendo este o sentido em que
o conceito revela de forma mais explícita as suas
características adaptativas. Já que a supressão da
informação, tem como objectivo evitar a inter-
ferência de material mnemónico mais antigo
nas novas aquisições de informação ou evitar re-
cordações desagradáveis para o sujeito. O pro-
cesso de supressão, actua directamente sobre a
informação a inibir.
Bjork (1989), alerta para a importância de di-
ferenciar o conceito de inibição da evocação de
informação, do conceito de recalcamento, defini-
do por Freud (1914). Este seria um mecanismo
de defesa, como tal não consciente, enquanto
que na inibição da evocação da informação há
uma intenção consciente de supressão ou blo-
queamento da informação
Respondemos assim à primeira e última ques-
tão que colocamos. A resposta à segunda, tercei-
ra e quarta questões, prende-se com uma inefi-
ciente actuação do processo de inibição de infor-
mação.
Além do processo de inibição da evocação de
informação, há outro factor que também in-
fluencia o acesso e evocação da informação
contida na memória. Falamos do estado de hu-
mor do sujeito.
Eich e Metcalfe (1989), preconizam que a ca-
pacidade de acesso e evocação da informação na
memória, está relacionada com o estado de hu-
mor com que essa informação foi codificada, e
com o estado de humor com que é evocada. Se
existe diferença nos tipos de estados de humor,
entre a codificação e a evocação de informação,
a dificuldade de esta última se realizar é maior.
Um trabalho de Weingartner e col. (1977),
mostra que as associações de palavras realizadas
por sujeitos em crise maníaca, eram evocadas
mais 97% nesse estado de humor, do que em
estado de humor normal. Realçam também o
facto de que as alterações da memória são mais
notórias quando o estado de humor sofre modi-
ficações radicais (p.e. alegria-tristeza ou vice-
-versa).
Clark e col. (1983), baseando-se no facto de
existir uma relação directamente proporcional
entre o nível de alerta e o estado de humor, i.e., o
nível de alerta é elevado nos estados de humor
alegre e o contrário, afirmam que as dificuldades
de evocação da informação estão relacionados
com um baixo nível de alerta, desencadeado pe-
la existência de um estado de humor negativo.
Num trabalho que realizámos (V. Claudio,
1987), podemos observar que os sujeitos depri-
midos, quando comparados com os sujeitos
esquizofrénicos e voluntários normais, apresen-
tam um nível de alerta e de memória inferiores.
Nos trabalhos de Eich e Metclfe (1989), os re-
sultados indicam que apenas uma grande mo-
dificação do alerta e do estado de humor, origi-
nam uma pior evocação, que a provocada por
uma grande mudança no estado de humor. Apon-
tam também no sentido de que a evocação de
acontecimentos internos, i.e., construidos pelo
sujeito, estão mais dependentes das alterações do
estado de humor do que acontecimentos exter-
nos.
Podemos afirmar, que existem dois efeitos do
estado de humor sobre a memória:
Dependência do humor
: A evocação de acon-
tecimentos, independentemente do valor afectivo
que o sujeito lhe atribui, é tanto melhor quando
realizada com o mesmo estado de humor com
que foram codificados.
Congruência do humor
: Se existir uma simila-
ridade entre o contéudo afectivo que o sujeito
atribui ao acontecimento e o estado de humor no
momento da codificação ou evocação, estes são
facilitados.
Pensamos ser importante clarificar a noção de
esquecimento dirigido, i.e., o esquecimento de
uma determinada informação depois de uma
instrução nesse sentido. Por exemplo, antes de
se apresentar ao sujeito, uma série de cinco dígi-
tos, diz-se que ele deve apreender a série que vai
ver. No fim desta série diz-se que aqueles dígitos
serviram apenas para treinar, que os deve esque-
cer e que deve sim apreender a série que vai ver
a seguir. Depois da apresentação desta segunda
série, pedimos ao sujeitos que nos diga os dígitos
que se lembra. Se ele não evocar nenhum dos dí-
gitos da primeira série, a instrução de esqueci-
mento dirigido foi 100% eficaz.
Os trabalhos de Bjork (1970), indicam que a
instrução para esquecer, produz mais resultado
quando fornecida antes da apresentação dos es-
tímulos a recordar, i.e., a instrução para ter
efeito, deve surgir antes da representação dos
items na memória se estabilizar.
Bjork (1972), refere que o processo de esque-
cimento dirigido pode ser influenciado por dois
mecanismos, presentes no processo de codifica-
ção da memória:
A
Enumeração Selectiva
: Que leva o sujeito a
centra-se apenas nos items que surgem depois da
instrucção para esquecer.
Os
Agrupamentos Diferenciados
: Que leva o
sujeito a agrupar de forma separada items a
lembrar e items a esquecer.
Assim, o processo de esquecimento dirigido
seria explicado através da utilização dos meca-
nismos de codificação.
Diversos trabalhos (em que salientamos o de
Bjork & Geiselman, em 1978), demostram empi-
ricamentre que apenas estes mecanismos relacio-
nados com a codificação da informação, não são
suficientes para explicar o esquecimento dirigi-
do.
Bjork (1978) defende a existência de um Me-
canismo de Desaparecimento relacionado com
esse fenómeno. Posteriormente, Geiselman e
col. (1983) descrevem este mecanismo como a
inibição da evocação da informação.
Tomando como referencial estes pressupostos
e os trabalhos empíricos que os suportam, po-
demos afirmar que o processo de esquecimento
dirigido, será resultado de uma modificação na
codificação e de uma inibição na evocação da in-
formação.
Pensamos ser importante referir, ainda que de
forma sucinta, o modelo cognitivo da depressão
com que trabalhamos.
Segundo o modelo proposto por Champion e
Power (1986), os indivíduos com tendência para
a depressão, possuem um objectivo sobrevalori-
zado para cuja execução estão orientados ou um
papel sobrevalorizado, que assume geralmente a
forma de um objectivo interpessoal. O sujeito
subvaloriza as outras áreas da sua vida, em rela-
ção ao objectivo ou papel. Estes, têm como uma
das funções, inibir partes negativas e inaceitáveis
do modelo de self do sujeito. O indivíduo com
tendência para a depressão, caracteriza-se tam-
bém por uma vulnerabilidade aos acontecimen-
tos ou dificuldades que ameaçam o objectivo ou
papel dominante. Assim, a ocorrência de um
acontecimento que ameaça a perda destes, é
acompanhada pela perda das suas funções
inibitórias. Desta forma, o indivíduo experiencia
uma perda intrapsíquica de controlo, e um au-
mento de pensamentos, imagens e emoções in-
desejáveis. Tal perda ou ameaça, deixa ainda no
indivíduo um sentimento de vazio, de ausência
de objectivos e de inutilidade, já que se mantêm
poucas ou nenhumas alternativas de valor.
Podemos observar nos sujeitos deprimidos:
- A construção de um modelo mental negati-
vo do self
- Alteração da tríade cognitiva (de si, do pre-
sente, do futuro)
- Usa um mecanismo de abstração selectivo,
processando a informação de forma parcial
i.e., apenas a informação negativa.
- Os pensamentos automáticos negativos, que
se caracterizam por ser pouco razoáveis,
disfuncionais, repetitivos e idiossincráticos,
embora vivenciados pelo sujeito como plau-
síveis, representam o material cognitivo di-
rectamente acessível e que espelha as contí-
nuas auto-avaliações negativaas que o sujei-
to deprimido realiza.
Como facilmente se pode concluir, nestes su-
jeitos, o processo de inibição da evocação de in-
formação, com o seu objectivo de adpatação não
é realizado (recordemos que uma das funções da
supressão da informação é impedir as recorda-
ções dolorosas, para o sujeito
HIPÓTESES
As hipóteses em estudo são as seguintes:
A 1.ª hipótese é a de que existe uma desinibi-
ção no acesso à informação no sujeito depres-
sivo, que não permite que a instrução de esque-
cer a 1.ª metade de uma lista de adjectivos, de-
sencadeie com a mesma potência que em outros
grupos, um processo de esquecimento dirigido.
O sujeito deprimido é submergido pela contínua
evocação da informação com valência negativa,
o que não lhe permite actualizar a informação
nem impedir as recordações dolorosas. Isto leva
também à 2.ª hipótese, de que o estado de humor
do sujeito deprimido implica um maior esqueci-
mento dos adjectivos com valência positiva,
comparativamente com os de valência negativa ,
independentemente da sua posição numa lista de
adjectivos.
CONCLUSÔES
Os resultados que obtivemos no 1.º estudo,
não vão ao encontro da primeira hipótese que co-
locámos, já que como se observou, qualquer
dos grupos – deprimidos e não deprimidos – não
apresentaram diferenças significativas na evoca-
ção de adjectivos da 1.ª série, i.e., a instrução de
esquecer, embora tenha levado a uma menor
evocação de adjectivos, em ambos os grupos,
não originou uma menor evocação de adjectivos
positivos em relação aos adjectivos negativos, no
grupo de sujeitos deprimidos. Assim, a instrução
de esquecimento dirigido funcionou de igual
forma para o grupo de sujeitos deprimidos e o
dos sujeitos não deprimidos.
No segundo estudo, em que se introduziu o
processamento auto-referente dos adjectivos,
podemos observar que a instrução de esquecer
leva a que o grupo de sujeitos não deprimidos
evoque menos adjectivos, que o grupo de sujei-
tos não deprimidos. Contudo, o grupo de sujeitos
deprimidos evoca mais adjectivos negativos do
que positivos, da 1.ª série.
Isto leva, a que o grupo de sujeitos deprimidos
não apresentem o bias positivo que se observa
no grupo de sujeitos não deprimidos, e que tam-
bém se observa no 1.º estudo Podemos considerar que a perda deste
bias
positivo é desencadeada pelo processamenteo
auto-referente dos adjectivos.
A inclusão do self no processamento, que
leva a um
bias
positivo nos sujeitos não
deprimidos, é concordante com outros estudos
de memória, como por exemplo os testes auto-
biográficos de memória.
No que se refere ao acesso à informação, os
resultados dos dois estudos comprovam que
existe, no grupo de sujeitos deprimidos, uma
desinibição do acesso à informação. Assim,
quando deliberadamente tentam memorizar –
quando a instrução que devem memorizar é
fornecida –, o grupo de sujeitos deprimidos pro-
cessa, retém e evoca preferencialmente palavras
negativas, i.e., palavras que são congruentes
com o seu estado de humor. Este aspecto reforça
a existência, neste grupo, de uma atenção foca-
lizada na informação com valência negativa.
Podemos relacionar este aspecto, com as pertur-
bações no processamento de informação nos su-
jeitos deprimidos, causado pela existência de um
modelo mental negativo do self e pelos modelos
mentais que este gera.
Os modelos mentais, noção introduzida por
Johnson-Laird (1983), são fenómenos não cons-
cientes, situados na memória de evocação. As-
sim, levam a que o sujeito deprimido processe e
retenha apenas a informação negativa, congruen-
te com o seu estado de humor, i.e., os modelos
mentais funcionam como um filtro selectivo no
processamento de informação.
O facto de os sujeitos deprimidos, possuirem
regras muito rigídas, leva a que os modelos
mentais que constroem, se apresentem, na maio-
ria das vezes, como incontestáveis. Seria esta, a
origem dos sentimentos de desvalorização e pes-
simismo típico dos deprimidos.
Os modelos mentais, aparecem clinicamente,
em forma de acontecimentos cognitivos. Por
exemplo, auto-conceito, pensamentos automáti-
cos. Os resultados observados, no 2.º estudo, nos
sujeitos deprimidos, baixo auto-conceito, baixa
atribuição do significado que pode ter para os
outros, reduzida competência em relação aos
problemas e elevado valor nas atitudes disfun-
cionais, reforçam a existência de modelos men-
tais negativos, neste grupo.
Esta passagem dos modelos mentais – que são
estruturas profundas – para acontecimentos
cognitivos – estruturas superficiais – é mediati-
zada pelos processos cognitivos. Isto permite-
-nos afirmar, que quando existe distorção, esta é
reflexo de uma perturbação estável e profunda
dos mecanismos de pensamento lógico.
Para terminar citaríamos Ribot (1982):
Sem a total obliteração de um imenso núme-
ro de estados de consciência, e a momentânea
inibição de ainda mais, a recolha de informação
seria impossível. O esquecimento, excepto em
certos casos, não é uma alteração da memória
mas sim uma condição para a saúde e a vida.
»
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